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Incentivo à produção científica sobre agenda climática privilegia pessoas brancas

Dos mais de R$19 milhões investidos entre janeiro e setembro deste ano, 65% foram destinados a pesquisadores brancos. Bolsistas negros dividiram apenas cerca de R$ 4,9 milhões desse valor;

Foto: Acervo

Observatório da Branquitude

10 de junho de 2024

O saber ainda é branco: as desigualdades no fomento à agenda climática, elaborado pelo Observatório da Branquitude, iniciativa dedicada a produzir conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude e suas estruturas de poder. O objetivo da publicação é apresentar um panorama sobre o apoio estatal à produção científica no campo climático e ambiental, principal pauta da agenda global, e, a partir deste retrato, analisar as interseccionalidades entre justiça climática, raça, região e a subrepresentação na geração de conhecimento dos grupos mais afetados pela crise: a população negra e a indígena. Para as análises, o estudo se aprofundou nos dados de pesquisadores autodeclarados negros ou brancos — dados de outras etnias e dos bolsistas que preferiram não responder a autodeclaração não foram escrutinados.

O relatório é baseado em dados públicos referentes ao período de janeiro a setembro de 2023, disponíveis no Painel de Fomento em Ciência, Tecnologia e Inovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do governo federal. Na seleção da amostra constam 404 bolsistas de quatro programas de produção científica, conforme a classificação do CNPq, de diferentes programas de ensino superior — principalmente da pós-graduação, que alocam várias modalidades de bolsa e auxílio de pesquisa. Os programas relacionam-se à agenda climática e ambiental nas cinco macrorregiões do país: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Estes contam com o financiamento do CNPq, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e de outras agências de fomento.

Os programas escolhidos são os seguintes: Mudanças Climáticas, Tecnologias Ambientais, Biodiversidade e Biodiversidade e Recursos Naturais. Em sua análise, foram considerados critérios de raça/cor, sexo, região e estado da federação, organizados em dois principais tópicos: distribuição do financiamento e distribuição de bolsas e auxílios de pesquisa.

Thales Vieira, coordenador executivo do Observatório da Branquitude, destaca a motivação do estudo. “Nós nos debruçamos sobre esses dados e análises a fim de responder a duas perguntas extremamente importantes. Como o incentivo à ciência nacional por parte das agências estatais se comporta quando confrontado por raça/cor, gênero, região e estado? Como o debate a respeito da representação racial na produção de conhecimento, especialmente sobre o clima e o meio ambiente, se traduz em números? É sob esse prisma que queremos contribuir com a pauta da justiça climática no país”, reforça.  

Distribuição do financiamento 

Até setembro deste ano, o repasse de verbas feito pelas agências de fomento aos programas avaliados pelo estudo, em valores absolutos, foi de R$ 19.856.284,36, divididos percentualmente desta forma: Mudanças Climáticas (57,04%), Tecnologias Ambientais (22,87%), Biodiversidade (11,35%) e Biodiversidade e Recursos Naturais (8,74%). 

O maior acúmulo de verba — R$ 12.951.913,75 (65,23% do total do financiamento) foi destinado a pesquisadores brancos. Mesmo em regiões e estados com maior autodeclaração de pretos e pardos, pesquisadores brancos continuaram a ser os mais beneficiados. Os pesquisadores negros dividiram R$ 4.942.949,20, ou 24,89% do montante. Pesquisadores indígenas aparecem com a menor porcentagem, 0,25% do total investido (R$ 49.971,56). Há ainda os que preferiram não declarar raça/cor — estes recebem um total de R$ 1.911.450,00.

As análises do relatório sobre a distribuição de recursos focam nas disparidades entre pesquisadores brancos e negros, que possuem maior percentual de representação. 

De acordo com o boletim, a região Sudeste foi a maior beneficiada pelos recursos disponibilizados, e recebeu um total de R$ 9,7 milhões em incentivos que financiam um total de 179 bolsistas. As regiões Nordeste e Sul aparecem na sequência recebendo recursos totais de pouco mais de R$ 4 milhões e R$ 2,4 milhões. A região Centro-Oeste recebe R$ 2,2 milhões dos benefícios e no final da lista observa-se o Norte, com apenas R$ 1,5 milhão dos recursos para o financiamento de pesquisadores e ações correlatas, embora concentre em seu território grande parte da Floresta Amazônica, alvo de importantes discussões de preservação, no âmbito das mudanças climáticas no Brasil e no mundo. 

As regiões apresentam certa proporcionalidade na distribuição de recursos quando observado o número de bolsistas beneficiados em cada uma delas: o Nordeste possui um total de 102 pesquisadores contemplados, o Centro-Oeste tem 50 bolsistas, no Sul são 46 bolsas e no Norte, 27 pesquisadores

No entanto, ao aumentar o foco desta lupa, o relatório aponta que no Norte os pesquisadores negros estão em desvantagem em relação aos brancos no recebimento de recursos. Embora o número de bolsistas seja praticamente equilibrado, com ligeira vantagem para os pesquisadores negros (51,8% do total), quando se trata de repartir a verba, volta a assimetria — a maior parcela (65,3%) vai para os brancos. 

No comparativo dos dados sobre as bolsas de pesquisa para os temas de clima e meio ambiente e os percentuais de pessoas autodeclaradas brancas em todas as regiões do país na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) referentes a 2020 e 2021, fica evidente a sobrerrepresentação de bolsistas brancos, principal achado da publicação. Um dado norteador é o número de pessoas negras – autodeclaradas pretas e pardas –, que totalizam 56% da população brasileira, segundo a Pnad.   

Ainda de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2021, 17,7% da população do Norte era declarada branca, e em 2023 o percentual de bolsistas brancos na região é de 40,7%.  A região é a única com maior percentual de bolsistas negros em comparação aos brancos, 51,8% de pesquisadores negros, de acordo com o CNPq, um exemplo agudo da disparidade na produção de conhecimento. 

No Sul, 80,4% dos pesquisadores declararam-se brancos sobre um pequeno percentual de negros (10,9%). Na região, o percentual de autodeclarados brancos segundo a Pnad é de 75,1% da população. Em segundo lugar neste ranking está a região Centro-Oeste com 60% de bolsistas brancos ante 28% negros, enquanto que o percentual da população branca era de 34,7% em 2021. O Nordeste aparece com 55,9% de pesquisadores brancos e 39,2% de negros, e ao comparar o percentual de população branca autodeclarada na região (24,7%) é percebido o reforço da tese sobre o privilégio das concessões de financiamentos aos brancos. O Sudeste apresenta 52,1% de pesquisadores brancos e 31,8% de negros, com um percentual de 50,7% referente à população branca declarada pela Pnad em 2021, a menor disparidade encontrada por região. 

O Programa de Tecnologias Ambientais apresenta o maior contingente de brancos detentores de bolsas (60,3%) sobre 33,3% de negros; o programa de Mudanças Climáticas segue a mesma tendência com brancos atendendo 59,5% de bolsas concedidas contra 27,7% de negros; e o de Biodiversidade financia 55% de pesquisadores brancos e 35% de negros. O único programa que foge deste padrão é o de Biodiversidade e Recursos Naturais, onde há maior representatividade de bolsistas negros (51,3%) ante brancos (35,9%).

São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Pernambuco são os quatro estados com maior financiamento, segundo o relatório. Dos 18 estados com programas analisados pela pesquisa, apenas as regiões Sul e Sudeste têm todos os estados representados com algum apoio.

Rio de Janeiro e Distrito Federal são exceções no cenário de distribuição de financiamento à pesquisa: em primeiro lugar, homens brancos, depois mulheres negras, mulheres brancas e ao final da lista, homens negros.

A coordenadora de pesquisa do Observatório da Branquitude, Carol Canegal, revela o porquê a sociedade negligencia esta realidade. “Essas discrepâncias passam despercebidas em um primeiro momento por conta da aparente proporcionalidade dos números. Esta é a normativa geral da sociedade criada para nós — brancos sendo privilegiados em todas as instâncias — e essa realidade já está enraizada a ponto de viciar o olhar, prejudicando a análise dessas disparidades, impedindo que a grande maioria das pessoas perceba os absurdos que a estrutura criada pela branquitude é capaz de reproduzir. Não a enxergamos e por isso este tema é tão relevante. Nossa produção de dados visa evidenciar essas desproporções para mudar o desenho das políticas públicas do nosso país a partir de programas racializados, incorporando pesquisadores e pesquisadoras racialmente diversos”, afirma. 

Distribuição de bolsas e auxílios de pesquisa 

Sobre a distribuição das bolsas por região, Mudanças Climáticas é o programa que mais concentra bolsas e auxílios a pesquisadores em quatro regiões, sendo 85,2% de bolsas no Norte, 78,3% no Sul, 61,76% no Nordeste e 58,7% de bolsas disponibilizadas no Sudeste. Na região Centro-Oeste, o programa soma apenas 30% das pesquisas, e o programa de Biodiversidade tem maior representação (70% das bolsas). A alta produção de estudos sobre esta temática reforça a urgência do debate sobre qual tipo de análise e de conhecimento científico está em desenvolvimento hoje no país e a importância da discussão. 

A relação de gênero também evidencia grandes disparidades no recebimento de recursos, de acordo com a pesquisa. concentração dos recursos públicos para os homens, sobretudo, brancos — a eles se destina o dobro da verba que vai para mulheres brancas, e 3,7 vezes mais se comparado à liberada para mulheres negras. 

Os dados do relatório revelam que o programa de Tecnologias Ambientais tem o maior percentual de bolsas concedidas a homens (60,3%) contra 39,7% de bolsistas do sexo feminino. Já os programas de Biodiversidade e de Biodiversidade e Recursos Naturais mostram uma pequena diferença percentual para mais quando observada a representação feminina no número de bolsas, 58,3% de mulheres bolsistas contra 41,7% de homens em Biodiversidade, e 51,2% sobre 48,7% no segundo programa elencado. O programa de Mudanças Climáticas apresentou paridade de 50% entre os sexos em relação à detenção das bolsas de pesquisa. 

“Com esta publicação queremos provocar uma reflexão muito importante sobre a qualidade da distribuição dos recursos para pesquisas no âmbito do clima e do meio ambiente, que hoje privilegia pessoas brancas, constatação encontrada nas análises do relatório. Os grupos mais afetados pelo desequilíbrio climático e pelas tragédias que temos visto no noticiário, pessoas negras e indígenas, estão sub representadas neste cenário. A branquitude não é natural. Trata-se de uma construção social que coloca pessoas brancas no topo das hierarquias sem racializá-las. Precisamos urgentemente refletir sobre isso”, finaliza Carol Canegal

O boletim na íntegra estará disponível a partir do dia 8 de novembro no site do Observatório .

Metodologia 
A pesquisa O saber ainda é branco: as desigualdades no fomento à agenda climática apresenta uma análise exploratória dos dados obtidos no Painel de Fomento em Ciência, Tecnologia e Inovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). As análises consideram dados do período de janeiro a setembro de 2023, sobre quatro programas gerais, conforme a classificação do CNPq, de diferentes programas de ensino superior — principalmente da pós-graduação, que alocam várias modalidades de bolsa e auxílio de pesquisa. O levantamento resultou em uma amostra de 404 pesquisadores bolsistas, distribuídos pelos quatro programas: Mudanças Climáticas (242); Tecnologias Ambientais (63); Biodiversidade (60); e Biodiversidade e Recursos Naturais (39).

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